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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Retrato de um sonho.

Distanciava o lábio angelical,
chorando em incomum alegria
dizia me amar de forma profana
por momentos calorosos, se entregando com vontade sob luzes abafadas em um amanhecer tardio,
nua e belíssima com o sol radiando em seu seio,
a fatalidade sacra de dois corpos enfim conectados,
e o medo que antes pulsava infeliz se tornou hipérbole desse amor

vozes retornam na memória,
o olhar perdido na tristeza se distância em implacáveis variáveis
o lábio que se fecha segurando a dor que pulsa
o mistério por trás da expressão me faz perguntar:
"O que os anjos caídos têm a revelar sobre o mundo para nós?
O que têm você a dizer garota?"

Recitava baixo seus segredos sob a forte luz do sol que entrava pela janela
quando por instantes um surdo silêncio tomou conta e nada além de sua voz ecoava ali
um voz delicada que como plumas sopradas pelo vento batia nas paredes de meu ouvido

O desejo te consumia até os olhos
com nossas imperfeitas realidade entrando em choque
e o tesão de amor nos fazendo querer avançar
em momentos em que tudo que é necessário para o mundo entrar em combustão é um simples beijo
um beijo imaculado com nossas almas chorando desejosas de algo mais, de um prazer intenso
você tentou barrar a si própria
acreditando ser sórdido tal ato, diante de seu amor por outro alguém
mas a escolha do amor presente e palpável pareceu ser sensata
mostrando assim uma dualidade entre a ansiada fuga e minha realidade

Um escuridão e saímos pela porta de nossa casa, já não nus
estava tateando seu corpo com as mãos e conectado à você com meu olhar
havia pouco tempo para tudo
para as dolorosas palavras que se mantiveram enterradas por todo esse tempo
para o choro ou para o grito desolado de "fique"
o que restou foram nossos lábios juntos sob a luz da alvorada

Estava escuro quando acordei
apenas um doloroso feixe de luz vindo da rua entrava pela janela
o quarto cinzento, como se relâmpagos refletissem nas paredes
eu estava ofegante e assustado
a respiração carregava o peso do tempo em que já não te vejo
entrei em um devaneio profundo
buscando por resquícios da imagem de seu rosto
e sua voz perfurou minha memória
estava perdido, como um andarilho desamparado cruzando as estradas da vida sobe o céu negro
como anjos fumando em sacadas e observando as estrelas e mais além

Para tanto nem foi preciso que você dissesse um palavra
nem que desse um suspiro de saudade
nem que olhasse em minha direção com aqueles seus olhos magnéticos
nem que arrebatasse minha vida a desestruturando - já que havia feito isso a muito tempo atrás
bastou um clarão e sua nítida imagem à minha frente e estava eu a sua espera em qualquer lugar em que pensei que pudesse te encontrar
mas você não veio, alguém bateu à porta e era apenas o carteiro
e as cartas, eram apenas contas, nada assinado com seu nome, nada com seu cheiro, nem uma mecha de cabelo, apenas um delicado espaço em meu passado.

Nota de rodapé: Buscamos em sonhos alcançar aquilo que não podemos quando acordados. A permanência do sonho na minha mente por dias seguidos produziu material para estender o poema. Escrito e estruturado entre os dias 16 e 19 de junho de 2014.

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