Páginas

domingo, 15 de junho de 2014

Apologia definitiva à você.

Catatônicos anjos cantam em um grito rouco,
sua voz ecoa sucinta por um quarto vazio
todas as paredes desmancham em uma vastidão branca,
vejo você em um espelho de mil reflexos
com sangue escorrendo em sua narina direita
e nas ruas abaixo do centro da cidade,
em bares que jamais frequentei,
com pessoas que jamais vi sorrir
nas quais dentes abertos se escancaram na boca de misericórdia,
um turbilhão fervescente
e você lá jogando o jogo deles

cabelos caem de cabeças que insistentemente dizem os manter em pé,
olhos esbugalhados de multidões surpresas,
o fascínio daqueles que não me viram desistir,
corpos sedutores na calada da noite,
vertiginosa epígrafe escondida através do tempo,
choques de realidade confrontam o sonho ambíguo,
e o que quer dizer te ver naquela sacada?

hipsters bêbados perdidos na noite fria,
onde todos os sonhos pareciam acabar em nada
quando a sarjeta se tornou o único lugar
e depois de um tempo todos perceberam a grande besteira,
nada mais importava porque a vida já se tornou tão baixa à ponto de cabeças explodirem nas estrelas

e a fragilidade de seu sorriso desbotou feito rosas no outono,
quando todos já não aguentavam mais um porre,
nem um último sorriso de cerveja,
e a pretensão de dormir esta noite vai embora com o vácuo lá fora engolindo a lua,
o cosmo que pulsa em meu coração é como uma gaivota gritando em alto mar

folhas caídas em uma rua arborizada em algum lugar da cidade de São Paulo,
radioativas lembranças que deterioram com a memória,
um fluxo de consciência ímpar recitado em pé na sua varanda
e todos os sorrisos se vão
quando caí de joelhos à seus fantasmas

Reviro minha mente e encontro um pedaço de você
seu rosto branco, pálido desaparecendo lentamente na escuridão à distância,
ventos gelados penetram lábios de amores imaculados
e por fim eu sou um bomba de nêutrons no pôr do sol eletrificado através do tempo, me arrastando para te esquecer em uma lobotomia

sua voz,
e um clarão derruba todos muros da mente
sua voz,
e todos os amores passados se vão com a morte de mil cúpidos
sua voz,
e eu despenco da janela do quinto andar
sua voz,
e o magnetismo do mundo me chama para o chão
sua voz,
e todas as portas se fecham em todos os hospícios do mundo
sua voz,
e o solstício de inverno se desregula nos trópicos
sua voz,
e carros batem na avenida de meu coração
sua voz,
e todas as estrelas do céu se calam
sua voz,
sua voz...



Nota de rodapé: A palavra "Apologia" pode ter vários sentidos, entre eles no senso comum: Dizer-se simpatizante de características de determinado grupo; Mas neste caso, tece o sentido de elogio, assim como Platão faz em seu livro "Apologia de Socrátes".

Nenhum comentário:

Postar um comentário