A janela do carro embasada,
estou em uma Shangai maldita
e a chuva ácida recaí sobre minha cabeça
e a fumaça e o vapor das ruas corroí nossa alma
rostos tristes em meio a tempestade
um zumbido essencial
marcado pelo dogma, o fim está próximo
dobrando a esquina, maquiado de um de nós
o rosto fatal não está escondido em uma máscara
e quando todos acreditávamos,
descobrimos então que perdemos o jogo,
perdemos para aquilo que é sujo e desumano
aquilo que é baixo, e nos atinge sim
porque nem a próspera arrogância nos defende
de um vil tiro à queima roupa
todos os valores foram lavados
contrabandeados por falsos piratas esquizofrênicos,
no fim estamos todos cegos,
surdos com os ouvidos sangrando
será que um dia já foi diferente?
Entro na estação de trem,
trilhos apagados, assim como as vidas
que passam ali, fogem de si, bem ali
num canto qualquer, para agulha maldita perfurar
a heroína que de heroica não têm nada
só aquele suicídio lento que proporciona
a morte lenta compensa mais?
O cheiro acre de cigarros, e as prostitutas na noite
os travestis desfigurados e tornados animais,
tudo pelo bem maior, de nossa hipocrisia diária,
sexo fácil não pode, sexo pago também não,
mas quanto maior seu apartamento
e mais caro seu carro,
mais lindo o gemido no anal
e maiores as marcas de batom
trancamos-nos em casa com medo da violência,
mas a violência agora é doméstica,
lava, limpa e cozinha
tudo em troca de um olho roxo
e não se fala mais em sociedade patriarcal
afinal, os direitos já são todos nossos
deixe, deixe ir
e irá. Tudo irá se transformar em sua frente
na grande caixa de ilusões, nos choros e
nas lágrimas esparramadas pelo chão,
minta para mim, assim como mentiu para ele,
vire seu rosto para mim, assim como virou para ele
jogue-se, arraste-se, manipule-se,
vamos lá, trate-me como a si mesmo,
mas isso não é de verdade
quero seu gemido mais alto em meu ouvido
chamando meu nome
e todos, todos nós estaremos enfim perdidos
neste caótico circo, sem palhaços,
sem mágicos, sem dançarinas,
sem luz, sem graça nenhuma.
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