a cidade recaiu sobre mim
e em meus sonhos nebulosos como
uma nuvem de carvão e ácido ela
escureceu minha visão e tomou
a golpes de lâmina afiada as últimas
gramas de ar puro que eu havia
guardado em segredo - tomou
de mim em suas vielas e bairros sujos
também aquela sensação que todos
temos um dia de que todos são santos,
que todos são anjos - a sensação de
há um divindade interior em cada um
e num colapso de minha consciência
percebi que ela intoxicou minhas veias
com sua paranoia e segredos sexuais -
eu me rastejei por seu chão cancerígena
e por seus paralelepípedos de medo
- eu dei meu estômago vazio e boca
à sua prova, ao seu paladar tirano,
à seus cabos de aço e cacos de vidro
inumanos - eu me joguei no chão da
avenida faria lima de frente à faróis
e refletores, à bichas incandescentes,
à putas e seus desejos violentos de
doce e descomplicado amor - eu me
dei de terno e gravata vermelho sangue
à suas entrevistas de meio emprego,
à seu sexo de fim de domingo, aos
seus dentes gelados de madrugada,
às últimas tragadas do tabaco pecador
- eu fui mutilado pela cidade que repousa
sobre a mata ex-virgem e sua boceta urbana,
fui exposto no pelourinho pelos meus crimes
do coração e agora ela bate em minha
porta, agora a santa inquisição voltou
e estou sendo caçado por ter jurado
falso amor a essas vias expressas
de tristeza e desolação.
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