olhei no espelho e vi no olhar cansado
os dias quentes os quais herdei de meus pais,
vi também alamedas de confusão e trincheiras
nos lábios, sinuosas feito curvas de serras,
no nariz havia algo de infantil próprio de quem
costuma ainda acreditar nas histórias dos avós,
os olhos negros refletiam de leve o narciso que
morava dentro da toca e rugia nas noites frias,
a palma da mão que se estendeu era limpa
e contradizia o esforço e sangue de gerações
que haviam sido dados para que se chegasse
onde se chegou - agora as mãos já não careciam
de segurar o arado, as latas cheias de areia ou
o pano branco que secava as louças da casa
da patroa há 68 anos, um milênio de segundos.
não, não se podia ver os ossos, era um espelho
não uma máquina de raios-X, espelho esse
pendurado na casa de outro alguém, nas paredes
de azulejo branco e colunas de concreto que
não eram minhas, no estômago de uma casa
a qual eu habitava mas não amava, na qual
eu dormirá já vinte milhões de noites e pela
qual eu jamais senti tesão ou a obrigação de
me importar, ou de amar, mas teto é teto
e pálido branco ele me encara, descascando
tinta, descascando vida - o que resta agora?
caiu um pedacinho em minha mão branca
e respirou junto dos meus poros, o fragmento
de teto que por seis anos me morou, me viu nu,
me fitou sem olhos, me viu cair de lágrimas e
gozar, mas por que esse teto é tão estranho?
olho o espelho e ele também é, o lábio rosa
está descascando, dirá minha mãe que é o frio.
estranho falar tudo isso e de repente perceber
que me esqueci de como são meus cabelos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário