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sábado, 17 de janeiro de 2015

Caiena - Pedro Venturini.

Estou pensando em fugir para a Guiana Francesa,
ficar à beira do mar em Caiena - com o céu estrelado
da noite tropical - uma desilusão de verão
mas poderei dizer à todos que foi uma fuga
somente para testar os bares mais ao norte do trópico

quem sabe lá poderei escrever uma frase de impacto
em algum muro - não em francês é claro
quero fazê-los abrirem um dicionário de português
e entenderem que a dor é poliglota e não respeita fronteiras
talvez como resposta eu até consiga que algum outro louco
me pague uma bebida e me garanta uma boa conversa

as noites em Caiena devem ser densas e sinistras
é claro não tão mais sinistras do que as noites
em qualquer outra pequena cidade do mundo
o riso fantasmagórico das mortes jamais enunciadas
sempre disparam ao vento nas cidades pequenas
nas cidades grandes ao menos podemos fingir
que não seremos esquecidos tão cedo após a morte

olhando o céu, que o mesmo céu que se vê em Caiena
percebo que o brilho da cidade está no fato de que
ninguém quer fugir para lá, todos preferem Paris
e suas noites já surradas de tão visitadas antes,
já tão impuras dessa inocência do imaginário misterioso,
mas quem sabe o que de novo pode haver em Caiena?

respiro fundo enquanto ainda olho o céu
que é o mesmo céu de Paris e penso que também a visitaria
e suas noites onde deve ser confortável cruzar as mesmas
vielas e sentar nos mesmos bares nos quais sentaram
Henry Miller ou Ernest Hemingway à 70 anos atrás.
Incoerente? Não, só não gosto de extremismos
e brincar com o novo é como encarar um perigo latente
nunca se sabe o que pode vir - o que está atrás da porta

Eu iria a Caiena descobrir o novo na solitude da floresta
e da cidade virgem de poesias em seu nome
a devorá-la como devoramos uma amante nova
experimentando seu perfume, seu gosto, suas ideias,
sua prosa - para descobrir se no fim ela é uma cidade
que também chora à noite - como todas as outras choram.

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