I
Está nas ruas
Nos quadros de giz
E nos escombros
Está na vida
E na morte
As provas de tudo o que fiz
Está na história
Não nos livros
Mas na memória
E nas águas do rio
E nas garrafas de vodca
A nossa trajetória quando você era feliz
Como você pode ver
Eu ainda era uma criança
E tinha medo da chuva
E dos trovões
E você era só uma menina
Que eu talvez nunca viesse a conhecer
E no começo
Quando eu nasci
Eu chorei de tristeza
Pois você ainda tinha que nascer
Era como se eu soubesse
Que um dia ia te ver
E quando eu aprendi a andar
Você ainda nem estava na barriga
Mas eu sabia que as minhas pernas
Seriam úteis
Pra te ver
E pra a hora da despedida
Quando você então nasceu
Ninguém teve a decência de dizer
Pois eu, ainda era muito pequeno
E tinha muito a aprender
Mas quando você deu o primeiro passo
Eu ainda não sabia ler
Mas veja bem
Eu não estou tentando fazer uma ode
A um guerreiro
Ou a um grande general duma caserna
Essa é a história de um bêbado
E do motivo pra ele se esconder numa caverna
E nos primeiros cinco anos
Como era de se entender
Entre uma queda e outra
Eu acabei por esquecer
Que já sabia
Do encontro que viria a acontecer
II
Foi quando
Depois de idas e vindas
Eu comecei minha corrida
Até que tudo fosse certo
E ainda mais certo
Para o dia em que eu iria te ver
E eu pedi que uma amiga
Me ensinasse os segredos
Da vida
E a um amigo
Que me mostrasse
Como é a despedida
E está nas paredes
E nas calçadas
E nas manchas de sangue
Na saliva que foi desperdiçada
Está nos beijos
Que eu nunca te dei
E conforme os anos se passavam
Eu do meu lado cometia erros
E você, por sua vez
Fazia de tudo pra ficar
Sempre na tua
Eu já nem sabia quando ia te falar
Quando eu ainda era jovem
E inexperiente
Veio a chance de mudar a minha vida
E talvez, numa proposta inconsciente
Fiz novos amigos
E te encontrei numa dessas páginas partidas
Nossa conversa
Foi como qualquer outra
Você era de outro
E eu... Eu era só meu
Talvez por isso
Eu não tenha dado tanta atenção
Mas ainda assim
Eu prometi que pularia a tua janela
Naquela mesma noite
Com as melhores intenções
De conversar e te encantar
Sob a luz do silêncio e o barulho do luar
Infelizmente, me acorrentaram na parede
E por um bom tempo
Eu nunca mais te vi
Menos, é claro
Quando a estrada foi desbravada
Logo antes de eu dormir
III
Eu fui pra casa
Aquela noite
Me sentindo burro
E me sentindo alegre aos pedaços
E o meu pensamento
Só era mais baixo que os meus passos
E está na água
Com que eu lavei o meu rosto
E no meu travesseiro
E na memória do espelho
A forma como eu sorri
E segui a minha vida sabendo que te conheci
Naquele ano
Que já estava no fim
A surpresa
E a tristeza
Me pegaram de uma vez
E infelizmente a tua face eu esqueci
Eu perdi duas pessoas
Naquela noite
E foi incrível como o vazio
Era capaz de me atingir
E eu me tornei frio como o gelo
E nunca me arrependi
E conheci uma garota
Que eu já conhecia
Mais uma dentre as tantas
Que eu nas minhas contas
E no meu faz-de-contas
Achei que pudesse amar
O meu ledo engano
Me obrigou a mudar os planos
No começo daqueles tempos
Onde tudo era mudança
E no chão escorregadio
Eu não sabia me equilibrar
Então te vi
E você falou comigo
Como se eu fosse um conhecido
E no teu sorriso
Eu encontrei um motivo
Pra buscar a minha felicidade
Mas está nos relógios
E letreiros
E no concreto
E naqueles outdoors
O quanto é tarde
E quanto alarde se eu ficar por perto
IV
Redescobri teu nome
Teu contato
Eu roubei teu telefone
E agora eu falava
Com você a toda hora
E tinha medo de parecer um chato
E pouco a pouco
Eu que só era um curioso
Estava dia a dia, brincando de Romeu
Te esperando
Pra que pudéssemos conversar
E as conversas eram bobas como eu
Mas a minha vida
Ainda era tão inexata
Eu estava ensaiando
Pra filmar a minha cara
Numa produção tão amadora
Quanto as nossas conversas de verão
E eu ia viajar
Pela primeira vez
Desde que te conheci
Mas era diferente
Pois eu estava meio louco
E dessa vez ia sem ti
Mas dei um jeito
De fugir da minha aula
Para me despedir
E no fim daquele dia marcado
Você me ligou
E falou do beijo que deveria ter me dado
E de manhã peguei a estrada
Passei a tarde sem eira nem beira
E a noite foi estranha e arrastada
E no meio da minha bebedeira
Eu gritava o teu nome
Para aqueles que nunca iriam entender
E eu sonhei contigo, moça
Mas acordei com a minha boca
Na direção de alguém que não era ti
Mergulhei numa piscina
De sujeira e pena
E decidi que mudaria por mim e por você
E voltei tranquilo
Com lembranças e sorrisos
Tentando falar contigo
Tão logo fosse melhor
Mas por algum motivo
Não havia como e a saudade era o pior
V
E um belo dia
Você resolveu me ver
Na minha roupa de soldado
E eu fiquei tão envergonhado
Que não pude te olhar
E você riu um sorriso lindo que eu queria roubar
Então marcamos um encontro
No dia em que eu fui me exibir
Pra todos os que queriam olhar
Mas você dormiu de mais
E não encontrou quem fosse te acompanhar
Mas tua voz era o melhor de se escutar
E nesse dia
Você me falou de ciúmes
E acho que falamos de perfumes
E me disse as palavras
Que fizeram daquele dia
Algo para se lembrar
E então era de lei
Que eu desse um jeito
De ter você pra mim
Mas ainda tinha alguns problemas
Para considerar
Problemas que deixavam tudo ruim
Marcamos um novo encontro
Mas você não pode ir
Por que eu estraguei tudo
Demonstrando meus sentimentos
Sem saber
Onde eles poderiam ir
E eu fiquei com raiva
E senti tristeza
E fiquei frustrado
Mas quem tem amigos tem tudo
E no fim daquele dia
Tudo já estava solucionado
Você resolveu abrir o jogo
E entrar comigo na luta
E eu talvez deva ser grato
Por nesses momentos
Você também ter entrado
E tomado os riscos por sentimentos já nomeados
Ganhamos a permissão
Com todas as ressalvas
Mas a vida se ajustava
Conforme tudo parecia perfeito
E era perfeito
Pena que tudo muda, enfim
VI
E então eu viajei
Mais uma vez
E a saudade atiçou um fogo
Que não foi apagado
E nós incendiamos
E renascemos do nosso ato realizado
E agora tínhamos um segredo
E medo de sermos delatados
Era forte
Era desejo
Era tudo
Menos pecado
Mas enfim vieram as brigas
Eu te cobrava de volta
Os mundos e fundos que dedicava
E você não sabia o que era errado
Eu admito que pegava pesado
Mas ainda assim, tudo se ajustava
Mas está na areia
E no calçamento
No asfalto que há de contar
A história nada feliz
De quando eu fui ao teatro
E conheci alguém e te fiz chorar
Mas você foi forte
E não quis me largar
E eu que era precipitado
Me dei conta do erro de amargura
Que podia ser consertado
Depois que fizemos uma loucura
E juntos de novo
Nada parecia nos abalar
E éramos felizes
Eu parecia te fazer feliz
E você acreditava no meu amor
Mas, cabeça quente acaba qualquer pessoa
E logo veio o fim
Que pareceu definitivo
Eu tentei seguir minha vida
Com meus vícios
E minha bebida
E você tentou não chorar
Mas meu orgulho provou-se fraco
Quando vi que aparentemente
Eu havia perdido você
E saído de teus pensamentos
Você me fez uma proposta
E nós tentamos, mas o medo fez mais um tormento
VII
Sentindo-se usada
Você foi embora
E eu, sem saber o que fazer
Segui em frente em passo vacilante
Olhando por sobre o ombro
Esperando te ver de relance
Enfim desisti de te achar
E olhei para frente
E até vi a beleza do novo lugar
Mas você gritou o meu nome
Por trás de uma grade
Numa grande esquina
E eu podia te ver
E podia falar
Mas eu não podia tocar
Nem sentir tua boca e tua língua
Por um lado era bom
Mas por outro me abria a ferida
Até que um dia
Você resolveu fazer
Das aves e árvores
Testemunhas da nossa sentença
E eu relutante aceitei
Pra acabar com a desavença
Mas você me conhece
E eu não demoro pra caminhar
E um dia você me apareceu meio arrependida
Mas era eu que não me deixava tocar
E você chorou
E eu caí por dentro
E um dia eu te procurei
Para conversar
Do meu lado, nada estava intacto
Mas você havia começado a se arrumar
E eu fiquei feliz e sorri
Mas não dava pra você notar
Até que nos encontramos
Cruzando as águas dos rios
E o que eu vi, foi uma amiga
Com quem eu tinha memórias
De um tempo
Que não estava mais lá
E por fim
Depois de tanto tempo numa história mesquinha
Parece que tudo no universo é esquisito
E a nossa odisseia não é tão comum
Mas eu sei que no fim tudo se alinha
E por um lado é estranho e bonito
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