Teu sorriso reluzente
É um oásis no deserto
Dessa selva de concreto
Em que todos se perderam
Nunca vi lugar deserto
Que estivesse cheio
Menos esse
Que tem tanta gente
Como grãos de areia
Numa praia de esgoto
Mas está tão vazio
O calor humano é tão ausente
Que tudo congela
Por isso pintam
Teu sorriso numa tela
De tanto olhar o mundo
Eu me esgoto
Até te ver
E de tanto te olhar
Eu me esvazio
Meu corpo evapora
Como um rio
De ilusão
E se não vens
Me refaço em nuvens
E começo a chover
E molho as telhas
E as pessoas
E me escoo
Enquanto tudo ecoa
No deserto
Do meu ser
Mas nas poças
Que se formam
Teu barco de papel
Navega por um tempo
E depois começa a afundar
Ainda assim
O teu sorriso tão bonito
Continua a se formar
Como a estrada
Dos tijolos tão dourados
Não estamos mais no Kansas
E você se cansa
Se eu sou covarde
E sem coração
Sou o espantalho
E o homem de lata
Nesse corpo de leão
E o teu sorriso tão cansado
Já está tão demarcado
Que atrai os olhares
Dos mocinhos
E dos vilões
E recebe os assobios
Dos pássaros
E dos pedreiros
Eu passarei
Você apenas a passeio
Eu impreciso
No teu sorriso
Você impressa
Imprensada na conversa
E o deserto da rima
Barco a remo
Você mergulha nas águas do Reno
Todos te acompanham
E é tão lúdico
E exótico
Talvez seja hipnótico
Que seu corpo
Seja assim tão rebuscado
Cadê tuas curvas
Nas vitrines do mercado?
A rua do mercado é tão suja
Que a sujeira já tomou conta daqui
Até as torneiras tem
Uma água preta
Que fede a dor e angústia
E tem gosto de sofrimento
E solidão
O mofo já tomou conta
Do pão
E nas carnes, as minhocas
Fundaram uma religião
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