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sábado, 3 de maio de 2014

Coisa de garoa.

A São Paulo do século XXI
não é pior que a São Paulo do século XX
os edifícios continuam cinzas, as pessoas continuam tristes
e a gastrite continua a corroer o estômago

Às árvores das avenidas sombreiam a vida
e o olhar triste pelas janelas continua se deparando com o vazio
vazio de carros, vazio de caos, vazio pleno e único
a essa sordidez diária, têm gosto de paralelipípedo,
e o calçamento de meu coração já não têm desenho, só um gosto azedo
gosto teu, contra meu gosto, contra meu desejo racional seu perfume,
contra minha plenitude sua voz, contra tudo tu

Associo à ti tudo, e tu assassina-me
rato e gato, brincando trancados nesse nosso apartamento,
que mais parece caixa de sapato pequena e irregular feito nosso coração
irá ser tão irracional assim esse tal amor que dizemos nos entregar?
ou me entreguei eu apenas? Você, fugiu!

Essa São Paulo com gosto de café expresso de manhãzinha,
com cheiro de chuva a madrugada toda, a qual nossos corpos passaram separados,
o meu e o teu, mas o teu esteve com o dele, ih já nem sei se tu ri ou eu choro,
ou se separados brincamos e brindamos à todas mentiras que deixamos de contar

Essa São Paulo com os lábios carnosos
dos beijos imperfeitos nos domingos à tarde quando tudo parecia terminado
com suas chuvas torrenciais na minha janela da solidão
com seu nome cravado em todo lugar, em cada beco vazio,
em cada nuvem distante sobre o céu negro e imaculado sobre nossas cabeças à noite
com você me compreendendo da maneira compulsiva e desconexa que sou
com você me abraçando mesmo que sem querer ou sem saber
com os arranha-céus cortando meu amor em pedacinhos
com a desordem natural das milhares de vidas correndo
e cada trepada em apartamentos pequenos de madrugada
e cada lágrima desperdiçada em cada tentativa frustada de se recuperar
e cada trégua cancelada, e cada corpo entregue, e cada sono leve
e você por aí, e eu por aqui e aí de nós se nos esbarrarmos no metrô à sós
aí de mim de me imaginar contigo novamente,
com tua voz cravada na minha memória,
e essa São Paulo iluminada por mil novecentos e setenta amores diferentes,
mais de dois para cada dia da semana, menos o teu pra mim,
e eu desejaria que menos do meu pra ti.

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