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segunda-feira, 24 de março de 2014

Homem de lata.

Estou com câncer,
diagnosticou o doutor, na semana passada,
no consultório escuro, na tediosa sala de espera
com tevê ligada em uma programação qualquer,
de súbito o silêncio

Os papéis jogados sob a mesa
já diziam, este mal vêm de tempos
vai ver vêm desde quando eu descobri,
descobri que podia fazer uma coisa especial
mas de tão especial que era,
parecia que ninguém mais era capaz

Entendi então, por que as vezes,
bem as vezes, alguns homens vivem sozinhos,
permanecem sentados á janela vendo a chuva cair,
no frio de uma manhã de outono

O doutor então me indicou quimioterapia,
e mais umas pílulas, remédios á contragosto
meu cabelo caiu, minhas olheiras apareceram,
eu parecia mais fraco
vestido em uma roupa de hospital
andando pelo corredor
feito um fantasma

Cento e vinte dias depois
e o câncer continua ali
surgiu agora também, uma tal de solidão
dizem que vou precisar operar,
ali o lado esquerdo do peito,
dizem até que posso sobreviver,
afinal, todo mundo já não vive assim?

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