Parte I
A janela estava aberta
havia uma caneca sobre a mesa
luzes abafadas aqui dentro,
e uma vida toda lá fora,
uma leve brisa que entra,
junto também as luzes dos carros
passando, voando lá na rodovia
e o céu, sem estrelas.
Doce gosto de morango na boca
suave musica sendo tocada de fundo
nem parecia uma cena triste
se não fosse pelos pensamentos perdidos
ziguezagueando por caminhos dos quais
[a mente foge.
Parte II
Gotas de chá dispersas na mesa,
marcas que lembram batom
um homem buscando sentido na vida,
mal sabe que o sentido é senti-la,
ainda sentado, respiro pela boca
a vida na boca reside,
pois a vida é palavra viva
palavra nenhuma é palavra perdida
se dita com o coração,
cuidado então com as falsas mentiras
e com as palavras soltas do coração,
prenda-as para que não fujam
e signifiquem aquilo que não quer
Se um dia já me preocupei contigo
noutro prometi esquecer-te,
acho que não tomei tanto cuidado assim,
principalmente quando disse tudo que precisava,
quando o ar soprava minhas frases em sua direção.
Parte III
Esqueci-me completamente de me lembrar
então te guardei como segredo,
trancada em um armário as sete chaves,
com outros pequenos segredos e alguns monstros,
estes frutos da minha imaginação,
odiei a ti, quando no reflexo do espelho apareceu
manchada de sangue, louca, esquizofrênica
o monstro em baixo da cama
Corri por tortuosas ruas,
e por longos campos livres,
por onde meu coração residiu sem ti
e feliz, por finalmente não repetir teu nome a noite,
como um sujo segredo, malfeito, mal contado
Parte IV
Ressonância
o sucinto nome, em um sonho, pesadelo
relâmpagos lá fora, trovões e gotas geladas
choveu o restante da noite, e da manhã também
e a gripe veio, e então me lembrei;
de todas as letras do alfabeto,
por que justamente a sua deveria me aparecer?
Procurei por ti, com medo onde acreditei poder encontrar
não encontrei, me desentendi comigo mesmo,
ignorância minha, ou covardia sua fugir assim?
tic-tac do relógio, e o som da sua voz na mente perturbada,
escuro e estranho, complexo.
Parte V
Em um muro alto, lá em cima seu nome
aqui em baixo seus pecados, frios e viscerais,
como naquela tarde em que mentiu,
escondeu-se ou procurou por algo concreto que lhe salvasse?
Por de baixo da máscara, havia algo,
por dentro da pedra, havia coração,
por trás dos pecados, havia delicadeza,
e por trás desse julgamento havia alguém
e havia tristeza também, escondida nos cantos,
perdida em palavras que declaramos,
em sonhos falhos e enganos, em medos
e na compreensão, foda-se tudo,
é tarde para falarmos em tamanhã distração,
agora somos falhos e velhos, esquecemos como é
realmente tentar fugir, tentar viver, tentar sonhar,
por que são as crianças que pensam assim. Nós,
nos escondemos...
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