I
No primeiro dia
Eu era a escuridão
E nada se podia
Encontrar na exatidão
Até que a luz brotou
Mas ainda me faltava um chão
Para que houvesse vida
Em toda a imensidão
E ao passar de um dia
Surgiu o céu
Como espelho das águas
Demonstrando tudo de bom
E quiçá, aquilo de ruim
Como um jogo de faz de conta
Entre a vida e o vazio que havia assim
II
No terceiro
Foi definido
Que o céu seria da lua uma abrigo
E do sol também, como era de se esperar
E uma teria a noite,
E o outro o dia
Para governar
E na falta de terra
No quarto dia
Foi preciso
Fazer pequenas ilhas
Do que se tornaria
Uma espécie de paraíso
Faltavam os habitantes
Ou seria algo tão infértil
Quanto um coração partido
III
E o quinto veio
E com ele os avisos
De que os animais assim surgiam,
Parte partiu pra a terra
Parte n'água
E alguns a governar os céus
Podia-se dizer que não faltava muita coisa
Céus e terra,
Rios e mares, e o que mais?
E assim surgia ao sexto dia
Do barro de uma figura vazia
O que seria chamado
Ser humano
Mas o que seria "ser"?
IV
E no sétimo dia
Eu era descanso
Já não havia o que por
Aqui, ali
em algum canto
Era um espaço completo
E pleno
Mas toda plenitude
Um dia parece incompleta
E assim surgiu o pecado
E a sabedoria
De coisas diversas
Como os versos pobres
De um poema ruim
Agora a falta de propósito
Parecia não ter fim
E os deserto se povoaram
Com restos mortais
Os mares eram descobertos
E no vazio
Nascia novamente
Uma esperança
V
Foi quando numa simples atitude de criança
Tudo se foi
Lavado pelas águas
Que pareceram destruir tudo
Inclusive a vontade
De mudar de vida
E assim
Aos poucos vinha a recuperação
Tal qual um choque
Que faz pulsar de novo o coração
Mas tudo aqui sempre foi podre
E fora isso
Era inútil crer
Que haveria
Algo de bom por mais de um dia
E novamente veio a guerra
Os mares se abriram
E segregaram o amor e a razão
Os novos e os velhos pregaram
Mas ninguém seria digno
Da salvação
E se ninguém poderia se salvar
Nada mais poderia ser feito
VI
Era afinal
Um lugar imperfeito
Mas que podia se desenvolver
E pelo curso dos anos
Pequenas guerras
Grandes tragédias
E sobre as águas
As heresias que deveriam trazer a paz
Como algo doentio
Tudo tinha uma maneira
E as diferenças só serviam
Para piorar o jeito mundano de ser
E não era mais preciso chover fogo dos céus
O ser humano aprendeu
A se fazer temer
E com tudo podre
O passado se repetia
Até a hora em que foi preciso
Um juízo de ideia
Pra decidir os rumos
Do que era algo fora de mão
Pararam de crer em si mesmos
Para dar ouvidos à indecisão
VII
A água não daria mais jeito
E se era assim
Era preciso fogo
E as várias fogueiras
Para dar solução ao defeito
E tirar toda a sujeira
Mas era tarde
Para salvar alguma coisa
E ainda era cedo
Pra dizer que acabou
E eu virei bomba relógio
Converti minha paz em ódio
Bem pior que o ócio
Das ogivas nucleares
Que vão daqui
Ao centro do mundo
E eu destruí tudo
Para enfim recomeçar...
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